O que a dermatologia sabe — e você precisa saber sobre os efeitos do Ozempic, Mounjaro e companhia na pele, no cabelo e no rosto

 

Semaglutida, tirzepatida, liraglutida: nomes difíceis de pronunciar, resultados impossíveis de ignorar. Estudos publicados nas revistas médicas mais respeitadas do mundo mostram perdas de até 20% do peso corporal. Para ter uma ideia do que isso significa: antes desses medicamentos, só a cirurgia bariátrica chegava perto disso.

 

Mas há algo que ninguém te contou, algo que está aparecendo nos consultórios de dermatologia do Brasil inteiro.

 

Toda semana recebo pacientes que perderam muito peso com esses medicamentos e chegam ao consultório com queixas: queda de cabelo intensa, pele ressecada, rosto que ‘afundou’, flacidez que apareceu “do nada”. E muitas vezes elas não associam ao uso da medicação. Acham que é o estresse, a idade, a genética. Não associam ao remédio.

 

Em 2022, o dermatologista americano Paul Jarrold Frank cunhou o termo que rapidamente tomou conta da internet: Ozempic Face. A expressão descreve o conjunto de mudanças faciais que ele começou a observar em pacientes usando semaglutida, o princípio ativo do Ozempic. Bochechas que murcharam, olheiras que aprofundaram, linhas de expressão que apareceram do nada, uma mandíbula que perdeu definição. O rosto de uma pessoa que emagreceu muito, muito rápido.

 

O fenômeno não é novo. Pacientes que fazem cirurgia bariátrica passam pelo mesmo processo. A diferença é que agora temos milhões de pessoas usando esses medicamentos ao mesmo tempo. Então o volume de casos é enorme, e a dermatologia precisou se atualizar rapidamente.

 

No Brasil, os números justificam a urgência: segundo o Vigitel 2023, pesquisa anual do Ministério da Saúde, 61,3% dos adultos brasileiros têm sobrepeso ou obesidade. Entre as mulheres de 45 a 54 anos — exatamente o perfil que mais procura tratamento estético — esse número chega a 66,6%. São milhões de brasileiras que são, ao mesmo tempo, potenciais usuárias desses medicamentos e pacientes de dermatologia.

 

Por Que Isso Acontece com a Pele?

 

Para entender o que o emagrecimento rápido faz com o rosto: imagine que a sua pele é uma tenda. As estacas que a sustentam por dentro são a gordura e os músculos da face. Quando você perde muito peso rapidamente, essas estacas diminuem, mas a lona, que é a pele, não encolhe no mesmo ritmo. Aí ela afunda, cai, forma dobras.

 

Mas há algo mais acontecendo além da simples perda de gordura. A pele tem uma camada de gordura própria que é diferente daquela que emagrece com a dieta , que fica logo abaixo da sua superfície. Essa gordura dérmica, que os médicos chamam de DWAT, não é só estética. Ela produz hormônios que estimulam a produção de colágeno, abriga células que

 

protegem os fibroblastos (as células que fabricam o colágeno) e sustenta a pele por dentro como um colchão.

 

Quando o emagrecimento é muito rápido, essa gordura também diminui. E aí começa uma reação em cadeia: sem esse suporte interno, o colágeno é degradado mais rápido do que é produzido. A pele fica mais fina, menos elástica, mais ressecada. O rosto envelhece, não devagar, como acontece naturalmente com o tempo, mas de uma vez.

 

O que vejo no consultório é um envelhecimento acelerado. Pacientes que parecem ter envelhecido cinco, dez anos em seis meses de tratamento. E o paradoxo é cruel: a pessoa emagrece, fica mais saudável metabolicamente, mas se olha no espelho e não se reconhece.

 

Cabelos caindo: Esta é a queixa que mais assusta. A queda de cabelo associada a esses medicamentos já aparece em mais de mil casos reportados espontaneamente nos sistemas de vigilância de medicamentos dos Estados Unidos. Pesquisas recentes mostram que quem usa semaglutida tem quase sete vezes mais chance de desenvolver queda de cabelo do que quem não usa.

 

A boa notícia é que, na maioria das vezes, é um tipo de queda reversível, o eflúvio telógeno, uma queda difusa que acontece quando o corpo passa por um estresse físico intenso, como uma perda de peso muito rápida ou uma deficiência nutricional. Os fios entram em repouso todos ao mesmo tempo e caem juntos, geralmente dois a quatro meses depois do evento que causou o estresse.

 

O problema é quando essa queda ocorre em cima de uma tendência genética para calvície, que é muito mais comum em mulheres do que se imagina, especialmente após os 40 anos. Aí o medicamento pode precipitar ou acelerar uma queda que a paciente já tinha predisposição. Por isso é tão importante fazer uma avaliação tricológica um exame do couro cabeludo com dermatoscópio, antes de iniciar o tratamento.

 

Tem Lado Bom Também…

 

Antes que você descarte esses medicamentos como inimigos da pele, faço uma ressalva importante: os GLP-1 RAs, como são chamados tecnicamente esses medicamentos também têm efeitos positivos documentados na pele.

 

Eles reduzem a inflamação sistêmica de forma significativa. E inflamação crônica é um dos grandes aceleradores do envelhecimento cutâneo. Pacientes com obesidade têm níveis muito elevados de substâncias inflamatórias no sangue e quando essas substâncias caem com o tratamento, a pele pode melhorar.

 

Estudos mostram que pacientes com psoríase, doença inflamatória que causa placas avermelhadas e descamativas na pele, tiveram melhora expressiva dos sintomas ao usar esses medicamentos. O mesmo acontece com a hidradenite supurativa uma condição dolorosa que causa nódulos e abscessos nas axilas e virilha e que tem forte associação com obesidade.

 

E tem mais: em quase 12 mil pacientes acompanhados em estudos, não houve aumento no risco de câncer de pele com o uso desses medicamentos. Uma preocupação que muitos tinham e que os dados, por enquanto, descartam.

 

A mensagem não é ‘esse remédio é ruim para a pele. A mensagem é: emagrecer muito rápido tem um custo cutâneo. E esse custo pode ser gerenciado se você tiver o acompanhamento certo.

 

Atendo hoje um número crescente de pacientes que chegam ao consultório justamente para esse acompanhamento.

 

idealmente, a paciente deveria passar pelo dermatologista antes de iniciar o tratamento. Fazemos uma avaliação da pele, do couro cabeludo, dos exames laboratoriais. É muito mais fácil prevenir o ‘Ozempic Face’ do que tratar depois que ele já está instalado.

 

Durante o tratamento a primeira frente é a nutrição. o medicamento reduz drasticamente o apetite, muitas pacientes não ingerem proteína suficiente e proteína é o tijolo que constrói o colágeno. A meta é de pelo menos 1,6 gramas de proteína por quilo de peso por dia. Para uma mulher de 60 kg, isso são quase 100 gramas de proteína diárias. É muito. E com o GLP-1 reduzindo a fome, fica ainda mais difícil de atingir sem uma estratégia.Suplementação de creatina, vitamina C, ferro (especialmente para a saúde do cabelo) e vitamina D também fazem parte do protocolo.

 

A segunda frente é o skincare não é hora de economizar na hidratação. A barreira da pele fica comprometida com a perda de peso rápida. Hidratantes com ceramidas, vitamina C tópica, protetor solar todos os dias: isso é básico e inegociável.

 

A terceira frente são os procedimentos quando necessário. Os preenchedores de ácido hialurônico são a primeira escolha para restaurar volume facial perdido. Mas aqui tem um detalhe técnico importante: a perda de gordura no ‘Ozempic Face’ acontece principalmente nas camadas mais superficiais da face diferente do envelhecimento natural, onde as camadas mais profundas são afetadas primeiro. Isso muda a técnica de aplicação. Não é qualquer médico que conhece essa diferença.

 

Para quem quer ir além do preenchimento, os bioestimuladores de colágeno, como a policaprolactona, o ácido poli-L-lático e a hidroxiapatita de cálcio ajudam a reconstruir o colágeno perdido de dentro para fora. E os dispositivos de energia, como o ultrassom microfocado e a radiofrequência, trabalham a flacidez da pele.

 

O exercício físico não é opcional. Exercício de resistência musculação, pilates de força é parte do tratamento. Sem ele, a perda de massa muscular é inevitável e ela contribui diretamente para a ptose facial e a flacidez corporal.

 

Eu não incentiva a corrida pela dose máxima o mais rápido possível. Emagrecer dez quilos em dez meses é muito diferente de emagrecer dez quilos em dois meses. O resultado na balança pode ser parecido, mas o resultado no espelho é completamente diferente.

 

dermatologistas e endocrinologistas precisam conversar de verdade sobre o mesmo paciente. O endocrinologista conhece o medicamento, o metabolismo, a perda de peso. O dermatologista conhece a pele, o cabelo, as técnicas de restauração. Nenhum dos dois sozinho entrega o cuidado completo que essa paciente precisa.

 

Essa parceria é o futuro. A paciente que usa GLP-1 não quer só emagrecer. Ela quer emagrecer e se sentir bonita, se reconhecer no espelho, manter a autoestima que motivou o tratamento. Isso é responsabilidade nossa, de todos os médicos envolvidos.

 

Se você usa ou está pensando em usar um desses medicamentos, deixo três recados finais:

 

  1. Marque uma consulta com dermatologista. Não espere os problemas aparecerem. Avaliação prévia, exames e um plano de cuidados fazem toda a diferença.

 

  1. Não negligencie a nutrição. Proteína, ferro, vitamina D, vitamina C esses nutrientes são essenciais para a saúde da pele e do cabelo durante a perda de peso. Converse com um nutricionista.

 

  1. Não tenha pressa.Emagrecer de forma mais gradual é melhor para a pele e também é mais sustentável a longo prazo.

 

Emagrecer é uma conquista enorme. Minha função é garantir que essa conquista venha acompanhada de saúde por fora também. Porque quando a gente se olha no espelho e gosta do que vê, o tratamento realmente valeu a pena.

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